Sua opinião e importante para nós. Tire suas dúvidas e nos dê sugestões.

CLIQUE AQUI


MEUS LIVROS, MEUS AMIGOS 

O melhor patrimônio material que edifiquei é a minha biblioteca. Selecionada desde os treze anos de idade com avidez de menino, ainda a cultivo até hoje, procurando nos livros alguns tesouros que a vida ainda mantem ocultos. 

E, como criança, ainda observo em cada livro o encanto, e o estímulo de eleger pequenas gemas que vão compondo os colares que envolvem minha pele, transmitem brilho aos meus olhos, nutrem ideais de minha alma, despertam inquietudes espirituais e anunciam algumas sementes luminosas de sabedoria. 

Após a perda de meu pai herdei boa parte de sua magnífica bilioteca. Eu tinha apenas 13 anos. Mais do que meus irmãos, ficara longas horas no escritório dele, lendo, estudando, escrevendo. Comecei a guardar dinheiro da condução, do cinema e do amendoim torrado, para comprar livros no “Largo do Carioca”. Movido por inocente sofreguidão, voltava a pé para casa, transportando embrulhos de livros. 

Assim foi, que formei coleções básicas dos clássicos, além de Monteiro Lobato, Karl May, Tarzan, Jim das Selvas, Flash Gordon, Castro Alves – e todos os poetas que conseguia abraçar. Na minha frente, sobre a mesa, estatuetas de Wagner, Beethoven e o “Pensador”. 

Aos 14 anos fiz uma coleção de orientalismo, ocultismo e “poderes mentais”. Não entendia, apenas possuía – e intuía um pouco alguns acenos ( ou chamados ) do destino. Floresceu dentro de mim a idéia, o sonho, o ideal de ser escritor. Com o passar do tempo, os livros que perdi, poderia chorar por eles. Os que emprestei e não me devolveram, me ajudaram a aprender o significado de perdoar. 

Os livros que dei, sempre mantive duplicata, pois sempre me tem sido difícil dar a alguem uma obra que eu mesmo não gostaria de ter.  

Os que recebo de presente, são pérolas legitimadas pela generosidade e lapidadas pelo carinho com que foram ofertados. 

Livros são alimentos para a alma. Nutrientes que depois de assimilados podem ser repartidos com pessoas igualmente famintas. Poderia então passar dias, semanas e meses sem tal riqueza? 

Talvez pudesse... se me fosse concedida pelo destino uma aptidão especial de encontrar apenas dentro de mim, e no mundo natural que me rodeia, me fala, me inspira e me orienta na busca da verdade regida pelo Criador que a concebeu e semeou. 

Livros meus, queridos companheiros: Cuido de voces, meus filhos adotivos. Preciso de voces, meus amigos leais. Gosto de voces, meus colaboradores desprendidos e fiéis. 

Alguns de voces me trazem palavras, frases e parágrafos que leio, re-leio e uma vez incorporados me acompanham e me despertam ao menor chamado. Alguns outros me trazem fragmentos espassos de luzes que iluminam caminhos ocultos pela escuridão da ignorância. 

Mas todos voces, queridos livros, refletem algo de mim, quando percebo que sempre tenho e sou alguma coisa de voces. 

- autor do texto extraído do livro Folhas ao vento, para que a vida volte a ser um poema -  Carlos Mauricio de Andrade, Médico Cardiologista, escritor, poeta, pai do escritor Lúcio Sérgio de Andrade.